Muda: importante renovação das penas

As penas se desgastam e precisam de trocas. Saiba como a muda, período mais intenso de troca, ajuda na reposição e como cuidar das aves nessa fase.

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Fascinantes, as aves se diferenciam dos outros grupos de animais por apresentarem características bem peculiares. Entre elas, uma das principais são as penas. Além de embelezarem com diferentes colorações e formatos, possuem várias funções importantes. Auxiliam no vôo e na camuflagem, agem como isolante do calor e da água e, em aves aquáticas, aumentam a flutuabilidade, repelindo a água circundante. A plumagem é formada por 90% de queratina, a mesma proteína que prevalece nos bicos e que, nos mamíferos, protege a pele e predomina nos pelos, cabelos, cascos e unhas. Trata-se de uma proteína sujeita a desgastes, que podem ser causados por interferências como impactos, variações de temperatura, contato com a água, oxidação pelo ar e ação de agentes químicos presentes na chuva.

Renovação

A Natureza combate o desgaste das penas por meio da renovação. Caso contrário, com o passar do tempo, a deterioração acabaria por produzir alterações como mudanças de cor e redução da termorregulação, do isolamento térmico e da impermeabilização. Com isso, a saúde física e comportamental das aves poderia ficar comprometida, bem como o desempenho no voo, resultando até em risco de vida. A substituição das penas velhas por novas é um processo contínuo. Cai uma pena, nasce outra no lugar. Faz parte também a existência de um período de renovação mais intensa, geralmente anual, mas que às vezes acontece duas vezes por ano, chamado de muda. Todo esse mecanismo lembra bastante o que acontece com os pelos de cães e gatos.

Muda Completa

Quando a muda alcança o corpo inteiro, incluindo asas e cauda, é chamada de completa. Essa é a muda mais comum e costuma ocorrer em período posterior ao reprodutivo. Em virtude da intensa fabricação de queratina, o organismo aumenta o consumo de energia e nutrientes. Obviamente, as maiores penas – as de voo, presentes nas asas e na cauda – são as que mais esforço exigem (veja mais detalhes no quadro “Ana-tomia das penas”)..

Terminado o período reprodutivo, o organismo fica livre para dar novo destino à energia e aos nutrientes extra que vinha consumindo naquela fase. Pode assim construir novas penas em quantidade necessária para a muda ser completa. Além disso, a ave volta a ter total disposição de tempo para se limpar e cuidar da plumagem. Todas as aves estão sujeitas ao período reprodutivo. Nem mesmo as de estimação mantidas sozinhas em gaiola ou viveiro escapam dele. Basta o aumento do fotoperíodo, quando os dias ficam mais claros e há maior oferta de alimentos na Natureza, para o processo reprodutivo começar. A presença de ninho ou de ave de sexo oposto funciona como estímulo adicional. Há casos de interação tão intensa de psitacídeo com seu cuidador que a ave adota a pessoa como parceira. Outro detalhe: as fêmeas fazem postura independentemente de haver macho por perto.

Completa, mas em etapas

Grandes aves têm penas de voo enormes para repor. Suas mudas, portanto, são as mais demoradas. Podem passar de um ano, demorar até dois anos para se completarem ou serem necessárias de duas a três mudas “completas”, ou seja, de dois a três anos para todo o conjunto das penas de voo ser substituído. Essa troca em etapas, que costuma acontecer com as harpias, por exemplo, permite que a aerodinâmica da ave seja sempre preservada e que ela continue a voar normalmente durante as mudas. Na Natureza, parar de voar significa, para a ave, virar comida de predador. É raro, mas há casos de mudas que se sobrepõe ao período da atividade reprodutiva. Quando isso acontece, é normal que a troca das penas de voo, assim como sucede com as grandes aves, não ocorra em uma única muda.

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Muda parcial

Uma parte das mudas se dá antes do período reprodutivo. Nesse caso, a substituição das penas costuma se concentrar no corpo sem abranger as asas e a cauda. A provável causa de a muda ser incompleta é o organismo estar poupando energia para atender adequadamente ao período reprodutivo que se aproxima.

Quanto dura

Diferentes fatores influem na duração das mudas. Basicamente, quanto mais energia for necessária para a produção das novas plumas, maior será a morosidade. As mudas mais rápidas costumam ser as das aves pequenas, entre elas psitacídeos como Calopsita, periquitos e Agapórnis. Nesses casos, é normal que a duração seja de 40 a 60 dias. Para os papagaios, o prazo aumenta para quatro meses. E, nas Araras, a troca completa, incluindo asas e cauda, pode demorar até um ano. Entre os fatores que aceleram o término da muda está, além do pequeno porte, o calor. Ambos proporcionam menor consumo de energia, o que contribui para a celeridade. Dias longos também apressam a muda, por aumentarem o tempo de atividade diária do organismo. As chuvas contribuem proporcionando maior oferta de alimentos (e de energia). Colaboram, ainda, a boa condição física e nutricional da ave. O mesmo vale para a ausência de
ectoparasitoses, endoparasitoses, infecções fúngicas, bacterianas, protozoários e viroses. Por outro lado, a duração da muda aumenta quando a rotina normal da ave é prejudicada por influência psicológica ou comportamentalcomo estresse, medo ou excesso de luz, que reduz o tempo de descanso.

Sinais de muda

A maior quantidade de penas caídas na gaiola, em conjunto com falhas na plumagem e com a presença de penas em crescimento, é indício de que a muda começou. Parte das aves também apresenta mudança comportamental durante a muda, como cuidar mais da manutenção das penas. A redução do canto nesse período é típica em algumas famílias, como a dos asseriformes.

Cuidados

A muda é um evento natural. Não deve, portanto, ser vista como enfermidade. No entanto, o alto consumo de energia e de nutrientes dessa fase aumenta a vulnerabilidade a doenças. Preventivamente, é importante proteger a ave nesse período das variações bruscas de temperatura, das correntes de ar e do vento forte. Por outro lado, convém reforçar o valor nutricional da alimentação com a oferta de farinhadas próprias para esse fim, encontradas em aviculturas. No que se refere ao manejo nutricional e à suplementação vitamínica, é importante contar com a orientação de veterinário especializado em aves.

ANATOMIA DAS PENAS

Conheça os diferentes tipos de penas e como cada uma delas é formada

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As penas são compostas por algumas estruturas, todas produzidas principalmente por queratina, um tipo de proteína :

  • Cálamo – Parte do tubo que fica inserida na pele;
  • Raque – Continuação do cálamo;
  • Barbas – Ramificações laterais da raque;
  • Bárbulas – Ramificações das barbas.

Existem os seguintes tipos de penas:

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Penas de contorno – Recobrem o corpo. As mais desenvolvidas são as modificadas para o voo, formadas pelas rêmiges primárias e secundárias, nas asas, e rectrizes, na cauda.

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Plúmulas – Conhecidas como penugem, são encontradas tanto nos filhotes quanto nas aves adultas. Têm raque pouco desenvolvida ou ausente.

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Cerdas – Observadas mais facilmente em volta do bico, têm raque rígida e ausência de barbas. Auxiliam na captura dos insetos, agindo como “rede” que amplia a área de coleta.

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Semiplumas – Com estrutura intermediária entre as penas de contorno e as plúmulas, proporcionam isolamento térmico.

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Filoplumas – Por meio de terminações nervosas, transmitem informações à ave sobre a posição das penas de contorno, mantendo-as no lugar. Sua raque é fina, com barbas apenas na porção distal (próxima à ponta).

Clayton de Andrade é médico-veterinário com mestrado em Ciência Animal pela Universidade Federal de Goiás. Atende na Clínica Veterinária ExoticVet, especializada em animais silvestres e exóticos. Site: www.exoticvet.com.br